terça-feira, 19 de abril de 2016

La Morte Rouge (2006)

Como um filme pode impactar o imaginário de uma criança? É essa a provocação do potente curta-metragem La Morte Rouge, do diretor basco Victor Erice. Utilizando imagens do filme Garra Escarlate (1944) e cenas captadas, o documentário traça um retrato íntimo sobre o contato inicial que um personagem (o próprio diretor) teve com o cinema ainda quando criança. Quebrando algumas convenções da linguagem documentária, o curta faz o espectador entrar em contato com a imaginação do personagem, dando mais destaque às sensações do que aos fatos em si.


O filme despende seus minutos iniciais falando sobre a demolição do cinema frequentado pelo pequeno Victor. Imagens de arquivo vão introduzindo o espectador nesse mundo já extinto, destruído pelo tempo, e, ao abandonar uma linguagem mais límpida - comumente utilizada nos documentários -, o diretor tece imagens expressivas, de um quase deslocamento da realidade. Somos jogados, assim, a um espaço da memória, preso no passado junto a outras lembranças da infância.

Além das imagens em p&b, o que marca a atmosfera do filme é a narração estilizada, mais próxima do sussurro do que da neutralidade. Em vez de ouvirmos um historiador ou um repórter, o narrador assume o papel de um familiar contando uma história, que por vezes se aproxima do tom de uma história de terror, extremamente influenciado pelo filme visto pelo menino, o Garra Escarlate (dirigido por Roy William Neill, e que conta uma aventura do Sherlock Holmes). No filme, o detetive investiga uma série de assassinatos brutais, violência que foi justamente o que fez o menino ficar tão impressionado com o cinema e com a reação dos espectadores. A estilização do documentário se dá, portanto, ao relacionar o tom do filme exibido no cinema com a impressão íntima que este teve sobre o menino.

As cenas de "dramatização", dessa forma, assumem uma dimensão própria. Elas não estão a serviço da factualidade, pois não simulam eventos precisos. Preferindo os planos-detalhe em vez dos habituais planos gerais, o diretor lança mão de suas cenas como ferramenta para compartilhar com o espectador a própria imaginação do personagem central. Elas ilustram não necessariamente o que a criança viu, ou presenciou, mas reproduzem as imagens imaginadas, sentidas, percebidas. O espectador, assim, vê o que a criança sentiu, e não o que ela teria meramente presenciado na sala de cinema.

Utilizando o próprio objeto do filme como teor estético e narrativo, o documentário atinge um nível quase ficcional, buscando retratar o invisível e o impalpável. A força do curta, assim, é justamente deixar de lado os fatos em si e explorar as implicações interiores que esses fatos fizeram ecoar.


La morte rouge
Direção, roteiro e narração: Victor Erice
2006, Espanha, 32 min



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