Como um filme pode impactar o imaginário de uma criança? É essa a provocação do potente curta-metragem La Morte Rouge, do diretor basco Victor Erice. Utilizando imagens do filme Garra Escarlate (1944) e cenas captadas, o documentário traça um retrato íntimo sobre o contato inicial que um personagem (o próprio diretor) teve com o cinema ainda quando criança. Quebrando algumas convenções da linguagem documentária, o curta faz o espectador entrar em contato com a imaginação do personagem, dando mais destaque às sensações do que aos fatos em si.
O filme despende seus minutos iniciais falando sobre a demolição do cinema frequentado pelo pequeno Victor. Imagens de arquivo vão introduzindo o espectador nesse mundo já extinto, destruído pelo tempo, e, ao abandonar uma linguagem mais límpida - comumente utilizada nos documentários -, o diretor tece imagens expressivas, de um quase deslocamento da realidade. Somos jogados, assim, a um espaço da memória, preso no passado junto a outras lembranças da infância.
Além das imagens em p&b, o que marca a atmosfera do filme é a narração estilizada, mais próxima do sussurro do que da neutralidade. Em vez de ouvirmos um historiador ou um repórter, o narrador assume o papel de um familiar contando uma história, que por vezes se aproxima do tom de uma história de terror, extremamente influenciado pelo filme visto pelo menino, o Garra Escarlate (dirigido por Roy William Neill, e que conta uma aventura do Sherlock Holmes). No filme, o detetive investiga uma série de assassinatos brutais, violência que foi justamente o que fez o menino ficar tão impressionado com o cinema e com a reação dos espectadores. A estilização do documentário se dá, portanto, ao relacionar o tom do filme exibido no cinema com a impressão íntima que este teve sobre o menino.
As cenas de "dramatização", dessa forma, assumem uma dimensão própria. Elas não estão a serviço da factualidade, pois não simulam eventos precisos. Preferindo os planos-detalhe em vez dos habituais planos gerais, o diretor lança mão de suas cenas como ferramenta para compartilhar com o espectador a própria imaginação do personagem central. Elas ilustram não necessariamente o que a criança viu, ou presenciou, mas reproduzem as imagens imaginadas, sentidas, percebidas. O espectador, assim, vê o que a criança sentiu, e não o que ela teria meramente presenciado na sala de cinema.
Utilizando o próprio objeto do filme como teor estético e narrativo, o documentário atinge um nível quase ficcional, buscando retratar o invisível e o impalpável. A força do curta, assim, é justamente deixar de lado os fatos em si e explorar as implicações interiores que esses fatos fizeram ecoar.
La morte rouge
Direção, roteiro e narração: Victor Erice
2006, Espanha, 32 min
terça-feira, 19 de abril de 2016
La Morte Rouge (2006)
sábado, 9 de abril de 2016
A linguagem secreta da ausência
Se, num momento inicial, o blog tinha textos sobre cinema em geral, a partir de agora contará apenas com textos sobre documentários, sejam eles longas, curtas, vídeos pra internet ou qualquer outro formato. Por isso, apaguei alguns posts sobre ficções e mantive apenas os relacionados a docs (que se resumem a modestos dois posts).
Me detenho aqui, torcendo para que o impulso da escrita não acabe antes do próximo post.
Imagem: Walden (1969), de Jonas Mekas.
domingo, 2 de dezembro de 2012
Encontros no fim do mundo (Encounters at the end of the world, 2007)
Herzog viaja para o pólo sul para realizar esse documentário sobre a vida dos cientistas na Antártida. Partindo dessas entrevistas, o diretor constrói uma visão inaugural sobre o significado da vida nesse continente.
Se inúmeros documentários levantam diversas imagens sobre a vida na Antártida, parece-me que Encontros no fim do mundo apresenta a visão mais humana sobre o tema. No filme, Herzog se coloca como um catalisador das opiniões, perspectivas e impressões dos entrevistados, apresentando ao espectador uma Antártida que é vivida (e sentida) pelos seus interessantes personagens.
Logo no início do documentário, Herzog já avisa que não fará apenas um filme sobre pinguins, e fica claro um certo incômodo em ter aceitado o convite para a realização do filme. O diretor se questiona sobre o que ele está fazendo, e até iniciar os seus encontros, o narrador do filme parece não querer estar lá, afirmando durante seu o vôo até o continente que: "Eu estava até surpreso em estar nesse avião".
A Antártida procurada por Herzog começa a se manifestar quando o diretor encontra o seu primeiro entrevistado, o motorista do ônibus que o leva até a base. O diretor quer saber o que esse homem está fazendo lá, e o seu relato é a primeira imagem dessa Antártida herzoguiana: o continente é um palco para vidas que se relacionam com o mundo de um modo muito particular. A semelhança entre esse motorista, que é um ex-bancário, entre um linguista que se sente bem em estar num continente sem língua e entre um mergulhador apaixonado por ficção científica apocalíptica é o senso de deslocamento em relação ao mundo. A Antártida do filme é o resultado da união de visões extremamente particulares sobre o mundo, sendo um espaço para que essas pessoas encontrem um tipo de liberdade impossível no mundo civilizado. Esses pontos de vista somam-se à visão particular de Herzog, segundo a qual nossa vida no planeta está limitada a uma breve experiência.
O filme é centrado nas pessoas que foram jogadas naturalmente nesse ambiente inóspito, sendo testemunhas de um mundo extremo. Não fossem esses indivíduos, essa terra gelada seria apenas um ponto no mapa a ser conhecido e registrado. Herzog parte, assim, dos relatos para imprimir as suas próprias impressões e julgamentos, transformando o que seria um documentário sobre a vida animal em um registro de reflexões sobre a condição da humanidade no planeta.
Encontros no fim do mundo (Encounters at the end of the world)
Direção, roteiro e narração: Werner Herzog
2007, EUA, 99 min
Se inúmeros documentários levantam diversas imagens sobre a vida na Antártida, parece-me que Encontros no fim do mundo apresenta a visão mais humana sobre o tema. No filme, Herzog se coloca como um catalisador das opiniões, perspectivas e impressões dos entrevistados, apresentando ao espectador uma Antártida que é vivida (e sentida) pelos seus interessantes personagens.
Logo no início do documentário, Herzog já avisa que não fará apenas um filme sobre pinguins, e fica claro um certo incômodo em ter aceitado o convite para a realização do filme. O diretor se questiona sobre o que ele está fazendo, e até iniciar os seus encontros, o narrador do filme parece não querer estar lá, afirmando durante seu o vôo até o continente que: "Eu estava até surpreso em estar nesse avião".
A Antártida procurada por Herzog começa a se manifestar quando o diretor encontra o seu primeiro entrevistado, o motorista do ônibus que o leva até a base. O diretor quer saber o que esse homem está fazendo lá, e o seu relato é a primeira imagem dessa Antártida herzoguiana: o continente é um palco para vidas que se relacionam com o mundo de um modo muito particular. A semelhança entre esse motorista, que é um ex-bancário, entre um linguista que se sente bem em estar num continente sem língua e entre um mergulhador apaixonado por ficção científica apocalíptica é o senso de deslocamento em relação ao mundo. A Antártida do filme é o resultado da união de visões extremamente particulares sobre o mundo, sendo um espaço para que essas pessoas encontrem um tipo de liberdade impossível no mundo civilizado. Esses pontos de vista somam-se à visão particular de Herzog, segundo a qual nossa vida no planeta está limitada a uma breve experiência.
O filme é centrado nas pessoas que foram jogadas naturalmente nesse ambiente inóspito, sendo testemunhas de um mundo extremo. Não fossem esses indivíduos, essa terra gelada seria apenas um ponto no mapa a ser conhecido e registrado. Herzog parte, assim, dos relatos para imprimir as suas próprias impressões e julgamentos, transformando o que seria um documentário sobre a vida animal em um registro de reflexões sobre a condição da humanidade no planeta.
Encontros no fim do mundo (Encounters at the end of the world)
Direção, roteiro e narração: Werner Herzog
2007, EUA, 99 min
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quarta-feira, 3 de outubro de 2012
As Estátuas Também Morrem (Les Statues Meurent Aussi, 1953)
Chris Marker e Alain Resnais realizam neste documentário uma reflexão sobre a relação do homem com a arte, tanto ao produzi-la quanto ao classificá-la e expô-la em um museu, e, ao mesmo tempo, fazem uma crítica ao colonialismo e ao imperialismo cultural. Registrando estátuas africanas expostas em um museu, o filme busca as origens e os significados dessas estátuas, viajando até a África e denunciando a condição do negro em relação ao domínio da cultura branca.
˜Quando os homens morrem, se tornam história. Quando as estátuas morrem, se tornam arte. Essa botânica da arte é o que chamamos de cultura.˜
No início, a narração acompanha as imagens de estátuas em ruínas em ambientes naturais e, e seguida, as imagens são preenchidas com estátuas africanas isoladas em um museu. As obras são completamente separadas do mundo, sendo filmadas com um fundo preto, sem nenhum vestígio de vida. A narração, marcando ainda mais as imagens, reflete sobre o distanciamento que se cria ao isolar uma obra de arte - não conhecemos a função dessas estátuas nem quem as criou, e isso tem reflexos também na perspectiva política. Ao isolarmos imagens de uma cultura, ignoramos as suas características próprias e a trazemos para o nosso ponto de vista. A arte adquire um valor de prazer visual.
Num segundo momento o filme investiga o que originou essas imagens artísticas, nos levando até uma tribo na África. Essas imagens sem som direto, dubladas posteriormente, dão vida à história das estátuas. A câmera tem a intenção de mostrar como essas estátuas se inserem na vida cotidiana de uma dessas culturas.
No terceiro momento, iniciado em uma sequencia em que uma estátua é trancada em uma moldura de vidro, mostra-se como a cultura africana foi subjugada pela cultura branca européia. As imagens que hoje são produzidas pela África da época eram meras reproduções feitas para compradores turistas, que buscam souvenirs de viagens. Logo, essas reproduções não mais possuem a mesma riqueza criativa das imagens africanas anteriores, pois são limitadas pelas intenções de compra.
O filme não é apenas uma reflexão sobre a arte africana. Há também uma reflexão sobre a imagem artística, que não pode ser isolada do mundo real sem perder o seu principal valor, que é diretamente ligado à sua relação com a realidade.
As estátuas também morrem (Les statues meurent aussi)
Direção: Chris Marker, Alain Resnais
Roteiro: Alain Resnais
Narração: Jean Négroni
1953, França, 30 min
˜Quando os homens morrem, se tornam história. Quando as estátuas morrem, se tornam arte. Essa botânica da arte é o que chamamos de cultura.˜
Essa frase, dita sob um fundo preto, abre o documentário, sendo seguida por imagens de ruínas e estátuas danificadas pelo tempo. Já aqui se estabelece um olhar sobre o lugar do homem na história, que será explorado sob a ótica artística e política.
Esse documentário pode ser dividido basicamente em três momentos distintos: isolamento, descoberta e conflito
No início, a narração acompanha as imagens de estátuas em ruínas em ambientes naturais e, e seguida, as imagens são preenchidas com estátuas africanas isoladas em um museu. As obras são completamente separadas do mundo, sendo filmadas com um fundo preto, sem nenhum vestígio de vida. A narração, marcando ainda mais as imagens, reflete sobre o distanciamento que se cria ao isolar uma obra de arte - não conhecemos a função dessas estátuas nem quem as criou, e isso tem reflexos também na perspectiva política. Ao isolarmos imagens de uma cultura, ignoramos as suas características próprias e a trazemos para o nosso ponto de vista. A arte adquire um valor de prazer visual.
Num segundo momento o filme investiga o que originou essas imagens artísticas, nos levando até uma tribo na África. Essas imagens sem som direto, dubladas posteriormente, dão vida à história das estátuas. A câmera tem a intenção de mostrar como essas estátuas se inserem na vida cotidiana de uma dessas culturas.
No terceiro momento, iniciado em uma sequencia em que uma estátua é trancada em uma moldura de vidro, mostra-se como a cultura africana foi subjugada pela cultura branca européia. As imagens que hoje são produzidas pela África da época eram meras reproduções feitas para compradores turistas, que buscam souvenirs de viagens. Logo, essas reproduções não mais possuem a mesma riqueza criativa das imagens africanas anteriores, pois são limitadas pelas intenções de compra.
O filme não é apenas uma reflexão sobre a arte africana. Há também uma reflexão sobre a imagem artística, que não pode ser isolada do mundo real sem perder o seu principal valor, que é diretamente ligado à sua relação com a realidade.
As estátuas também morrem (Les statues meurent aussi)
Direção: Chris Marker, Alain Resnais
Roteiro: Alain Resnais
Narração: Jean Négroni
1953, França, 30 min
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