˜Quando os homens morrem, se tornam história. Quando as estátuas morrem, se tornam arte. Essa botânica da arte é o que chamamos de cultura.˜
Essa frase, dita sob um fundo preto, abre o documentário, sendo seguida por imagens de ruínas e estátuas danificadas pelo tempo. Já aqui se estabelece um olhar sobre o lugar do homem na história, que será explorado sob a ótica artística e política.
Esse documentário pode ser dividido basicamente em três momentos distintos: isolamento, descoberta e conflito
No início, a narração acompanha as imagens de estátuas em ruínas em ambientes naturais e, e seguida, as imagens são preenchidas com estátuas africanas isoladas em um museu. As obras são completamente separadas do mundo, sendo filmadas com um fundo preto, sem nenhum vestígio de vida. A narração, marcando ainda mais as imagens, reflete sobre o distanciamento que se cria ao isolar uma obra de arte - não conhecemos a função dessas estátuas nem quem as criou, e isso tem reflexos também na perspectiva política. Ao isolarmos imagens de uma cultura, ignoramos as suas características próprias e a trazemos para o nosso ponto de vista. A arte adquire um valor de prazer visual.
Num segundo momento o filme investiga o que originou essas imagens artísticas, nos levando até uma tribo na África. Essas imagens sem som direto, dubladas posteriormente, dão vida à história das estátuas. A câmera tem a intenção de mostrar como essas estátuas se inserem na vida cotidiana de uma dessas culturas.
No terceiro momento, iniciado em uma sequencia em que uma estátua é trancada em uma moldura de vidro, mostra-se como a cultura africana foi subjugada pela cultura branca européia. As imagens que hoje são produzidas pela África da época eram meras reproduções feitas para compradores turistas, que buscam souvenirs de viagens. Logo, essas reproduções não mais possuem a mesma riqueza criativa das imagens africanas anteriores, pois são limitadas pelas intenções de compra.
O filme não é apenas uma reflexão sobre a arte africana. Há também uma reflexão sobre a imagem artística, que não pode ser isolada do mundo real sem perder o seu principal valor, que é diretamente ligado à sua relação com a realidade.
As estátuas também morrem (Les statues meurent aussi)
Direção: Chris Marker, Alain Resnais
Roteiro: Alain Resnais
Narração: Jean Négroni
1953, França, 30 min
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